Temos que ter uma estratégia

Um dos mantras que eu mais ouço em meus trabalhos de consultoria é: “temos que ter uma estratégia”. De fato, em um mundo tão complexo, mutante e imprevisível, não se concebe uma organização sem uma estratégia confiável, afinal, é melhor ter uma estratégia para mudar do que nenhuma para perseguir. Contudo, é preciso cuidar de alguns aspectos importantes para seguir adiante. E esse cuidar passa por resistir à tentação de focar o curto prazo, em função de uma necessidade específica qualquer. Infelizmente, esse é um erro descomunal que ocorre com frequência nas empresas brasileiras.

A palavra “estratégia” se tornou cool, ou seja, virou uma espécie de palavrinha mágica para todas as questões cotidianas empresariais: caíram as vendas, “temos que ter uma estratégia”; precisamos expandir, “mas precisamos de uma estratégia”; não sei se é viável, “isso não é estratégico”, é necessário ampliar o quadro da TI, “pois a área é estratégica para a companhia”, entre tantos outros usos. Mas será que tudo precisa passar pelo crivo da estratégia? Penso que não!

Qual a consequência disso? O descrédito da estratégia e, como consequência, do planejamento, fator que prejudica o crescimento consistente das empresas e a realização das suas metas. E este descrédito traz sequelas graves, como, por exemplo, o pouco caso que muitos empresários e gestores fazem do processo de planejamento estratégico.

Aqui cabe mais duas indagações. Com o mundo mudando em grande velocidade, será que faz algum sentido planejar e criar estratégias de longo prazo? Não seria melhor tocar o cotidiano das empresas com o olhar para o curto prazo, até três meses, no máximo? Respondendo de trás para frente: não, não seria melhor tocar o dia a dia da empresa pensando apenas no curto prazo, ao contrário, o fato do mundo estar mudando rapidamente demanda que os dirigentes empresariais tenham uma estratégia que permita que as suas empresas apresentem maiores probabilidades de crescerem e prosperarem. Não se faz isso sem se contemplar o longo prazo. Obviamente, o longo prazo está, a cada dia, mais curto, a dinâmica do mundo é outra, novas demandas surgiram, assim sendo, uma estratégia bem elaborada precisa contemplar essas e outras novas premissas.

Mas, como fazer isso? Segundo Sun Tzu, em seu nem sempre compreendido livro ‘A Arte da Guerra’, a estratégia pode ser traduzida como a ‘arte do comandante’ e representa a sua capacidade de avaliar corretamente o inimigo, conquistar vitórias e julgar fidedignamente dificuldades, perigos e distâncias. Gosto muito dessa definição. Todavia, precisamos traduzi-la para os dias atuais. Aqui, chamo a sua atenção para o termo “arte”, ao qual tenho muito apreço ao tratar do tema estratégia, uma vez que, em minha opinião, é essa arte que difere os bons dos maus estrategistas, não a lógica cartesiana, embora também deva ser utilizada.

Muitos falam: “a minha empresa tem limitações, assim não é imprescindível elaborar estratégias, pois preciso tocar dia após dia para sobreviver”. Ledo engano! Quanto mais limitações há em uma empresa, mas indispensável é ter uma estratégia. Por exemplo, se existe carência de recursos humanos e financeiros para conquistar mercado e/ou enfrentar a concorrência em seu segmento, é essencial que essa empresa possua uma estratégia para otimizar tais recursos para a realização do máximo de ações possíveis para realizar as suas metas e objetivos. São nessas horas que a ‘arte do comandante’ entra em ação, para que a melhor estratégia consistente, viável e exequível seja desenvolvida e colocada em ação.

Como desenvolver a estratégia

Então, como desenvolver uma estratégia congruente? Sugiro a adoção de uma metodologia com quatro premissas:

1.  Linkar as estratégias às metas corporativas de longo prazo, balizando-as pelos imperativos empresariais (missão, visão e valores corporativos). Essas metas corporativas de longo prazo são definidas como direcionadores estratégicos. Quando a estratégia é elaborada sem vinculação com as metas corporativas, deixa de ser estratégia e se transforma em ações táticas balizadas por análises de cenários, muitas vezes, superficiais.

2.  Definir com clareza o que é e o que não é estratégico para a organizaçãoBenchmarksbrainstorms, utilização de canvas são, atualmente, bastante utilizados em processos de planejamento estratégico. Contudo, não são suficientes para a elaboração de uma estratégia consistente. É preciso mais. E esse “mais” tem a ver com as inquietações dos empresários, executivos e gestores; com as oportunidades e ameaças mapeadas na análise de swot cruzadas com os pontos fortes e fracos da empresa, gerando estratégias de alavancagem, atenuação de restrições, diminuição de vulnerabilidades e eliminação de problemas; com a análise dos possíveis obstáculos a enfrentar; com a elaboração de cenários negativos e ruins; com o questionamento sobre o que está oculto e não visto.

3.  Vincular as estratégias aos resultados esperados. As estratégias sozinhas não trazem resultado, é preciso que se tenha uma maneira de executar tais estratégias para a realização das metas propostas. Portanto, é imperativo que se tenha uma maneira de trilhar os caminhos das estratégias traçadas, quer dizer, são necessários planos de ações (táticas) que façam as pessoas se movimentarem e construírem os resultados esperados para os quais as estratégias foram elaboradas.

4.  Desenvolver as estratégias através de um processo de planejamento. O planejamento estratégico é de vital importância. Infelizmente, muitas empresas ainda não possuem processos de planejamento estratégico bem estruturados. Os atos de planejar e decidir eficazmente devem ser desenvolvidos em todos os níveis organizacionais, pois as estratégicas resultantes servirão de balizadores e direcionadores das ações empresariais.

Vale a pena ter uma estratégia

Como já escrevi outras vezes, estratégias bem definidas, elaboradas com esmero, compartilhadas com toda a organização e bem executadas, fortalecem o posicionamento da empresa no mercado, permitem uma efetiva transformação organizacional para melhor e colaboram para a realização das metas de maneira consistente.

Elaborar estratégias é uma forma de pensar o futuro, às vezes, não apenas pensá-lo, mas criá-lo, como um dia proferiu o sábio e saudoso mestre Peter Drucker. Execução é essencial para o sucesso de uma empresa, mas agir sem pensar, além de perigoso, pode transformar o sonho em utopia. Com planejamento e estratégia conseguimos transformar sonhos em desejos, desejos em objetivos, objetivos em metas e metas em realizações. Pense nisso! Seguimos…

Por Albírio Gonçalves*

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(*) Albírio Gonçalves é consultor empresarial, educador corporativo, palestrante, mentor, coach, autor e referência em desenvolvimento de líderes, gestores, times/profissionais de alta performance e equipes de vendas, bem como na profissionalização da gestão e qualificação de sucessores e herdeiros de empresas e grupos empresariais familiares.

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