Líderes, gestores e a baixa produtividade brasileira

Por Albírio Gonçalves

Esqueça o Custo Brasil, a baixa qualidade da nossa educação e a juniorização dos postos de trabalho. Sem medo de errar, os maiores responsáveis pela baixa produtividade das empresas brasileiras são os seus líderes e gestores seniores, que passarei a chamar de dirigentes. E não é muito difícil chegar a esta conclusão, basta um olhar mais apurado no modus operandi de algumas empresas e a leitura detalhada de alguns estudos, pesquisas e levantamentos recentes sobre liderança, modelo de gestão, produtividade e engajamento, como os da Confederação Nacional da Indústria, AON Empower Results, PWC, HSM, Gallup, entre outras empresas sérias. Claro que há ilhas de excelência, líderes e gestores competentes em gerar engajamento e fomentar ganhos de produtividade em seus times, mas, infelizmente, essa não é uma verdade comum à maioria das organizações.

Mas será que somos tão improdutivos, assim?

Vamos aos números. Segundo estudo da CNI, em dez anos, entre 2002 e 2012, no Brasil, o índice de produção por hora trabalhada aumentou míseros 6,6%. A título de comparação, na Coréia do Sul, o crescimento médio anual é de 6,7% e, na madura economia americana, de 4,4% anuais.

Uma bela diferença, não acha? Quer mais?

Segundo levantamento de 2013, do The Conference Board, o trabalhador brasileiro produz apenas 17,2% do que produz um trabalhador norte-americano. Eu sei, fazer comparação com os EUA é covardia. Pode ser, mas ter a metade da produtividade do argentino ou do mexicano e considerar que, em toda América Latina, só ganhamos em produtividade do boliviano, já é demais.

Um dos principais pontos da responsabilidade dos dirigentes é verificada na incoerência entre os seus discursos e práticas de gestão e liderança.

Darei um exemplo! Pergunte a qualquer dirigente o que precisa ser feito para que a sua empresa seja mais produtiva. Provavelmente, a resposta será:

  • Treinar e capacitar melhor os colaboradores.
  • Estreitar a relação com a cadeia de fornecedores, colaborando com a sua capacitação e desenvolvimento.
  • Conhecer melhor o que deseja os Clientes.
  • Melhorar os processos internos.

Contudo, quando há dificuldades ou uma crise, como a que o Brasil vive, desde o final de 2014, o que de fato tem acontecido?

  • A verba para treinamento, capacitação e desenvolvimento é cortada ou, na melhor das hipóteses, bem reduzida. Sem contar as demissões para reduzir custos, medida nem sempre a mais inteligente.
  • Quando existe, o investimento na cadeia de fornecedores é minguado.
  • O esforço para conhecer melhor o Cliente é resumido a escassas e restritas ações. Pesquisas de mercado? Nem pensar!
  • As mudanças nos processos ocorrem na base da tentativa e erro, sem o auxílio de uma consultoria especializada, reduzindo ainda mais a produtividade e elevando as perdas.

O resultado é que o ciclo vicioso vai aumentando: a baixa produtividade faz os recursos diminuírem; os baixos recursos minguam os investimentos em capacitação, desenvolvimento e serviços especializados, além de gerar demissões; a baixa capacitação, a redução das equipes e os problemas operacionais afetam negativamente o clima organizacional e diminuem ainda mais os níveis de produtividade. Triste!

E quem pode interromper esse ciclo vicioso? Apenas os próprios dirigentes dessas empresas.

Outro ponto que atrapalha a evolução da produtividade das empresas brasileiras é o desequilíbrio entre as suas diversas áreas. Precisamos considerar que, para construir uma cultura de excelência, é preciso investir e dar a devida atenção a todas as áreas corporativas. Porém, é mais fácil encontrar uma mosca branca do que uma empresa que valorize igualmente as áreas de RH, marketing e administrativa como valoriza as áreas de produção, comercial e financeira. Ou seja, a pouca atenção dada a algumas áreas acaba em baixos investimentos e pouca qualificação, resultando em falta de sinergia dessas áreas com as demais e com as metas estratégicas, o que contribui com a baixa produtividade geral.

E de quem é a responsabilidade em criar uma cultura de excelência? Dos dirigentes.

Para ser mais produtiva, uma empresa precisa fazer mais com menos. Para fazer mais com menos é preciso ter pessoas preparadas e engajadas, processos claros e simples, além de metas críveis e compartilhadas. E de quem é a responsabilidade em desenvolver pessoas, ajustar os processos, elaborar metas e compartilhá-las? Mais uma vez, dos dirigentes.

Lamentavelmente, a maioria das empresas ainda utiliza “técnicas de gestão” da década de 80. O mundo mudou (e muito!). Para melhorar a produtividade e responder às atuais e futuras demandas deste novo mundo, o modelo precisa mudar. Mas antes, é preciso formar e desenvolver melhor as lideranças das empresas, sem modismos e sem autoajuda. É necessário investir em líderes e gestores que privilegiem o verdadeiro trabalho em equipe, valorize o seu time e invista na inteligência de gestão. Não há mais espaço para a tríade pressão-comando-controle, ao menos nas empresas que desejam se destacar como produtivas e não queiram pagar o preço do retrabalho, da desorganização organizacional, da baixa produtividade, da rejeição do mercado e de prejuízos crescentes.

Como reverter a situação?

Acredito que o primeiro ponto é a empresa fazer um diagnóstico preciso da atual situação. Depois, mapear pontos fortes, pontos fracos, oportunidades, ameaças e fatores críticos de sucesso, revisar missão e valores corporativos, planejar para curto, médio e longo prazos, analisar o mercado, entender os Clientes, capacitar e desenvolver seus líderes e gestores, qualificar a equipe, ajustar processos, engajar os stakeholders no projeto, revisar parcerias e agir rapidamente. Parece muita coisa? Pode ser, mas nada que um bom planejamento não ajude a resolver. Contudo, um aviso: é preciso que os sócios, acionistas e dirigentes tenham interesse genuíno em melhorar os níveis de produtividade da empresa, apresentem senso de urgência, estejam dispostos a promover o empowerment, tenham persistência para enfrentar a resistência às mudanças por parte dos colaboradores e ajam com coragem e determinação.

Agora, você que é líder e/ou gestor, mas não está no topo da pirâmide está isento da responsabilidade? Claro que não! A não ser que você faça parte do que eu chamo de ‘Chefes 4.0’, aqueles que conseguem equilibrar com maestria os papéis de líder e gestor. Caso contrário, aconselho-o:

  • A menos que o seu nome seja Google, pare de agir como se você soubesse de tudo.
  • Aja com ética, integridade e respeito.
  • Escute a sua equipe e preocupe-se genuinamente com os seus membros.
  • Tenha coragem e valentia para lutar pelos seus colaboradores, afinal, o seu resultado depende da sua equipe.
  • Esteja aberto a novos aprendizados. Abra-se para o novo. Acolha a sua curiosidade. Estude!
  • Acredite que é possível.

E você, que não exerce cargo de liderança, já pensou no que pode fazer para melhorar a sua produtividade pessoal? Pense nisso!

Para que haja mudanças, é preciso reconhecer os problemas. Muitas vezes, para reconhecer os problemas, é preciso colocar o dedo na ferida. Acredito que este texto possui esta finalidade: colocar o dedo na ferida e provocar reflexões que levem à ação dirigentes, líderes, gestores e qualquer profissional que tenha o desejo de mudar para melhor, tornando-se uma pessoa mais produtiva, equilibrada e feliz. Pretencioso? Talvez! Mas não custa nada tentar.

Desejo-lhe SAÚDE e SUCESSO! Seguimos…