Abrir mão da gestão do negócio, perder poder e status são os principais medos dos fundadores quando pensam em profissionalizar a sua empresa familiar. Afinal, muitas vezes, profissionalizar constitui a introdução de novos modelos de gestão e a entrada de executivos de mercado em seu “reino”. Entretanto, diante da atual complexidade do mundo dos negócios, só há duas saídas para as empresas familiares: profissionalização ou morte!

Como profissionalizar?

Importante citar que profissionalizar não significa substituir a gestão familiar por uma gestão não familiar. Uma gestão profissional está atrelada a fatores como competência, desempenho, ética, governança, modelo de negócio eficaz e regras claras. Portanto, uma empresa com gestão profissional pode ser capitaneada por membros da família proprietária, por executivos de mercado ou por ambos.

Claro que, se na família empresária, houver alguém com as competências e habilidades necessárias para liderar o negócio e promover a sua expansão, mantendo a coesão familiar e transitando bem entre os principais stakeholders (acionistas, clientes, funcionários, fornecedores, comunidade), melhor. Para tanto, é preciso uma análise bastante realista dos talentos familiares, porque é o futuro dos negócios da família que está em jogo. Às vezes, não há herdeiro ou herdeira com vocação e competências necessárias para assumir os negócios da família, pois tais competências não se transferem por laços consanguíneos.

Sei que este é um duro golpe para muitos empresários, mas encobrir essa realidade só piora as coisas e pode definir o triste fim de muitos negócios. Para o bem da empresa, não importa se o principal gestor escolhido seja ou não parente, o que importa é que seja competente.

Para profissionalizar uma empresa familiar, é fundamental a atitude que a família, em especial o fundador, assume diante do processo de profissionalização. Não raro, consultores e executivos contratados para promover o processo de profissionalização de empresas familiares não conseguem concretizar os seus projetos, por causa de situações questionáveis que carecem ser mudadas, mas que não são, por ferir interesses particulares de membros da família. Não há profissionalização de fato apenas com retórica e implantação de ações superficiais. É preciso ter coragem para mudar e enfrentar questões melindrosas.

A gestão e o futuro dos negócios

Com o crescimento da empresa a sua complexidade também aumenta. Assim, durante o processo de profissionalização da empresa familiar, é imprescindível que a empresa adote um modelo de negócio sistematizado, que dependa cada vez menos do fundador, com a introdução de práticas de gestão que eliminem os riscos legais e não coloquem em risco o futuro dos negócios. Ou seja, é a hora da implantação de boas práticas de governança que contemplem temas como mecanismos de controles internos, distinção clara entre propriedade e gestão, nível de transparência, processos administrativos e operacionais, políticas de emprego para membros da família e sucessão. Segundo o IBGE, menos de 5% das empresas familiares brasileiras chegam à 3ª geração. Contudo, vale a pena destacar que a maioria dessas empresas que se perpetuaram passou por processos de profissionalização com a adoção de ferramentas de governança corporativa. Logo, profissionalizar a gestão faz bem.

Separando família, empresa e patrimônio

Para finalizar, destaco que a probabilidade de sucesso da empresa familiar cresce quando há disciplina, respeito e diálogo na família. Para tanto, é salutar que os fundadores superem dois grandes desafios: conseguir transformar as suas famílias em famílias empresárias e evitar que a gestão da empresa seja prejudicada por questões ou disputas que não tenham a ver diretamente com o negócio. Afinal, conflitos familiares mal resolvidos quebram mais empresas do que problemas de gestão. É preciso separar família, empresa e patrimônio, com regras claras, evitando, assim, que os membros da família empresária reforcem a máxima “avô rico, filho nobre, neto pobre”.

Por Albírio Gonçalves*

———-

(*) Albírio Gonçalves é consultor empresarial, educador corporativo, palestrante, mentor, coaching, autor e referência em desenvolvimento de líderes, gestores, times/profissionais de alta performance e equipes de vendas, bem como na profissionalização da gestão e qualificação de sucessores e herdeiros de empresas e grupos empresariais familiares.

One thought on “Empresa familiar: profissionalização ou morte

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *